domingo, outubro 08, 2006

A rapariga de cristal


O chapéu tapava-lhe a vista, mas ele não se importava muito, desde que conseguisse ver onde estava a garrafa de gin e o copo. Naquele pub não havia pessoas muito diferentes, todos entravam, sentavam-se com um ar deprimido, esperavam que viesse a empregada insinuante e pediam a mesma quantidade de volumes. Não era uma noite diferente das outras, não havia pessoas diferentes das dos outros dias, o bar fechava as 23 e a partir dai queria lá o dono saber senão da caixa registradora.A jukebox já vira melhores dias mas parava sempre no número 59, o velho jazz vencia sempre. Lá fora chovia e o céu estava ainda mais escuro do que o costume ( se é que isso era possivel), talvez a abrigo da mesma, ou apenas pela sede de iguais, entrou uma mulher. O som dos saltos de verniz era raro por ali, sentou-se ao balcão e pediu um martini "bianco gelo e limão". Não que fosse nada por aí além mas ela captara a sua atenção. Cabelos loiros, lábios rubros de ruge e olhos de cristal. Estava muito bem vestida, sobretudo azul escuro de um tecido robusto, vestido flutuante também azul com um decote profundo, ideal para quem queria apreciar os seus jovens atributos. O vestido não a cobria por inteiro e deixava transparecer também a elegância do seu corpo e principalmente das suas pernas extremamente bem delineadas. "Deve ter-se enganado na avenida, ou então é mais uma "secretária" que faz horas extraórdinárias", pensou enquanto o gin lhe aquecia a boca. Ela girou no banco alto do bar e parou precisamente em frente a ele, levantou-se, tirou o casaco (o que só a tornou ainda mais feminina) e avançou voluptuosamente em direcção a ele. Parou, debruçou-se sobre ele, retirou um cigarro de dentro do seu "clivage" sem nunca lhe desviar o olhar e perguntou com uma voz radiofónica "tem lume?".Já tocara e vislumbrara muitos "materiais" mas aquele era estranho, frágil mas cortante, brilhante e deveras ofuscante. "Que se lixe, se me cortar cortei", empurrou a cadeira da frente com um pé e disse-lhe que se sentasse, afinal não é todos os dias que se vê uma "rapariga de cristal".