segunda-feira, agosto 11, 2008




A floresta adensava-se, finos fios de luz prateada tocavam tudo à sua volta, o luar guiava-a por entre verde que se tornava preto e por flores que se vestiam de luto ao cair da noite. Pensava que era melhor correr, mas não conseguia, não sabia o caminho e tudo lhe parecia um quadro abstracto de formas irreconhecidas. Conseguiu definir a silhueta de uma árvore assustadora, era enorme, gigante mesmo, contorsia-se e retorcia-se no seu tronco denso e rugoso. Subiu-a, deu por si alojada no âmago da árvore, numa espécie de útero, côncavo. Parecia uma pequena casa, os ramos as janelas, as folhas as cortinas, a lua o candeeiro, os frutos a comida, os troncos os bancos e havia uma manta, pequena e velha, muito bem estimada, feita de vários tecidos: havia pedaços da seda mais nobre de um azul celeste, fazenda cinzenta, malha amarela, veludo bourdeaux, cetim verde. Algo, ou alguém havia feito daquela copa árvore a sua casa, nem que por uma noite apenas, decidiu plagiar quem quer que fosse e deitou-se sob o seu planetárium privado, tendo as estrelas como suas contadoras de histórias. Lá estava o leão, a ursa maior com a sua pequena menor, o sagitário, o capricórnio e o que tomou por seu quando nasceu, o escorpião. Quando se tapou com a manta percebeu que cheirava a algo que lhe era familiar, flor de cerejeira, o cheiro que ela mais recordava. Crescera com a ama, na sua casinha japonesa com painéis como portas e kimonos como vestidos. Aprendeu que a pequena cana de bambu entornava água a cada meia-hora e que à quinta vez que a água fosse entornada, era hora de seguir a ama até ao templo. Deixava uma moeda por entre as ripas, pedia um desejo e rodava a roda de oração. Ela adorava o som da roda a girar, fazia-a crer que um dia tudo o que a sua alma lhe contava à noite, enquanto dormia, se ia concretizar.
Adormeceu, o cheiro da manta fê-la viajar ao passado e esqueceu onde estava. Não era complicado, nem ela sabia. Acordou com um sol madrugador e o frio cortante que o acompanha sempre. Os olhos brilharam e os lábios estavam rubros, a pele rosada e a menina, já não estava assustada...

In mind scraps