sábado, novembro 08, 2008





A estrada apresenta-se desnuda. Ao longe o mar dança com a areia o tango das sereias. A lua ilumina o traço contínuo e a mão segue pelo muro de pedra velho, frio, enrugado. A saia flui ao sabor da brisa gelada de princípios de Novembro, os pés sentem o alcatrão rachado e cortante e que a relembram que o frio, finalmente, chegou. Malha cinzenta, pelo joelho com pequenos adornos artesanais de pele calejada de agulha de tricot. Caminha sozinha, ouve-se, sente-se, ama-se. Ao longe o horizonte negro anuncia os pontos de luz que se vão pintando. Alguns acordam apagados, é uma linha inconstante de luzes impossíveis de reproduzir. Brinca com os dedos desenhando no ar a ligação entre cada estrela fingida e lembra-se que é assim que os vê, os momentos que a fazem contrair os músculos da face. Sorri, leve e genuínamente. Mais à frente está um túnel, o coração acelera, problemas mal resolvidos com o escuro, sempre achou que a luz de presença era a sua melhor amiga. No túnel ouvem-se as palmas desnudas dos pés no chão húmido da noite longa, o eco lembra-a da imensidão de uma solidão. O cabelo outrora liso deixa-se encaracolar pelo passar das horas e do ar salgado. Fora do túnel o ar é mais leve, a lua beija-a de novo e as luzes tornam-se mais próximas. O caminho vai encontrando o seu término e a chave que percorre o peito ao seu encontro roda três vezes na fechadura antiga de ferro trabalhado. A saia cai, a água quente lava o negro dos pés, o vício de andar descalça onde quer que seja. A lua quase que desapareceu e o laranja denota-se num traço fino no horizonte. Escorrega por entre os cobertores e encontra a cama quente. A espera termina, os braços envolvem-na e puxam-na. O cheiro do incenso de canela e mel invade o silêncio e o fumo passeia nos feixes de luz, fragmentos fantasmagóricos de olfactos sensíveis. Em casa? Qual?...Passeia-se por vários portos de abrigo e aquece-se em todos, ama, a todos. Vê o casaco azul-escuro debruado a branco e o chapéu de marinheiro e lembra-se que o coração permanece, ainda, fechado, no útero da madrinha, trancado no báu de sândalo, à espera de quem nade até ele e o abra. As pálpebras fecham-se finalmente, o farol apaga-se e o sol emerge para o seu mandato universal, amanhã um novo porto, neste a promessa de voltar. Até amanhã.