terça-feira, março 10, 2009





Há um fascínio latente na madeira. Parece que nunca morre. Começa num pequeno sarcófago envolto em terra, preferencialmente molhada. O sol faz com que o gigante vá saindo, pé ante pé, não há pressa. O corpo é castanho, o cabelo verde, vermelho, amarelo, laranja, adornado com azuis e rosas, dependendo da época. Passa o tempo e as linhas definem-se, as rugas envolvem o tronco, a madeira ganha vida, podemos sabê-la ao percorrer as pontas dos dedos delicadas nas estradas que o tronco descreve. Fazemos doces dos frutos e xaropes do suco, o ambâr é só mais um material brilahnte, só...
Chega o frio metal, afiado, mercenário, de boas causas talvez, adivinha-se o fim acertivo, mas não. A madeira não morre. Passa pelas mãos de quem a conhece, trata, amacia, conforta e transforma. Há um fascínio, nas portas. A madeira nunca morre, podemos ver cada veio, cada camada ao passarmos o olhar por elas, ao tocar-lhes sobre o verniz. As portas sempre me disseram demasiado. Há sempre algo para além delas, sempre algo que não se espera. Há, até, cerimónia para com elas, não entrar sem bater, pode ser incómodo, inconveniente e isso, elas não querem. Porque elas são feitas para pensarmos que esses momentos não existem, e que existem. As portas escondem demasiados segredos e não é uma simples fechadura que as vão calar, não, por isso é que elas são feitas de madeira, porque ela, nunca morre. Está viva e ouve, sente, respira, como nós. É na certeza de que nos ampara que nos deixamos escorregar para o chão encostados a uma porta, com as mãos na cara a tentar esconder as lágrimas. Ela está lá, para segurar. Nós fechamo-la quando queremos fugir para o nosso mundo e abrimo-la a quem queremos que entre nele. Nós fechamo-la na esperança de nunca mais ninguém entrar. Nós confiamos-lhe os maiores segredos, até lhes arranjamos certeza de que nunca nos trairam, uma chave. Sempre me prendeu, aquele momento, em que se segura no puxador e se respira, antes de o rodar, porqu eno fundo, nunca estamos certos do que se esconde atrás da porta. No país das maravilhas a Alice percebe-me, ela dá-se ao trabalho de ficar mais pequena, maior, desde que seja para caber na porta certa. Sinto-me sempre um pouco mais criança quando encontro uma porta que me capture a atenção, aproximo-me, toco-lhe, sinto o cheiro da madeira e ouço, o som aparentemente oco da madeira aparentemente morta, mas não, está viva, porque a madeira...nunca morre.