sábado, outubro 11, 2008





Meias de renda até ao joelho, vestido de Outono, gabardine preta, sapatinhos de cetim preto e olhos tristes. No dedo levava o presente que lhe fora dado dez anos antes, o que com mais apego guardava. Desde aquele dia de chuva em Novembro em que apagou as velas do seu décimo segundo aniversário que o pôs, o anel da serpente com cristais incrustados. Achou-o lindo, achou-o único, soube-o único. Nunca mais o tirou, andava sempre com ela, anda sempre com ela. Fora-lhe oferecido pelo seu padrinho, o irmão mais novo da mãe, quem ela adorava.
Dez anos depois, no mesmo mês em que faria uma década que a sua avó falecera, ela voltou a vê-lo, o mesmo que lhe havia oferecido o anel. Os olhos tristes, em comunhão com os sapatos e gabardine, ditavam o sentimento e a sua alma naquele dia, negros. Tinha ido vê-lo, mas para nunca mais o ver. A igreja estava silenciosa, o cheiro característico da mesma pronunciava-se, cera derretida misturada com flores frescas e madeira antiga. O silêncio era quebrado por lágrimas, passos cautelosos e pelo vento que soprava lá fora. Não teve coragem de o ir ver, contemplou de longe o rosto tapado pelo véu de renda e lembrou-se da cara dele no dia do seu aniversário, não podia, não conseguia estragar essa imagem magnifíca. As lágrimas tentou contê-las, apercebeu-se ser em vão, tinha uma mãe consumida pela dor e um irmão que nunca vira chorar antes, que agora tinha os olhos vermelhos e um semblante demasiado triste para descrever. Achou toda a cena inóspita, achou-se pequena, minúscula. Não sabia o que fazer. Ouviu o irmão ao longo de todo o dia que lhe contava que eles haviam crescido juntos, que recordava as brincadeiras e travessuras, separavam-nos três anos. A revolta estava presente, o porquê, justiça divina posta em causa e corações vestidos de preto para a sua despedida. O caixão foi aberto, os óculos escuros previamente postos, as lágrimas eram incontroláveis, silenciosas, lancinantes e assustadoras. As despedidas foram feitas, mas nunca são, nunca ninguém está preparado. O caixão foi fechado, trancado com uma chave e baixado num último adeus. Os olhos vermelhos, as feições fechadas e tristes, todos voltaram às suas vidas, com a recordação de que naquele dia uma data seria assinalada para sempre. Para ela, a menina de olhos claros, limpidos, cristalinos e de uma cor lancinante pelo choro, o dia em que o seu padrinho fora enterrado e varrido da fisicalidade da sua vida. Lembrou-se que estava bonita, porque quis estar assim, para o padrinho a poder "ver" assim, linda como ele a lembrava. As meias rendadas foram tiradas e dobradas, o anel continua no dedo e de lá não mais sairá, da vista da menina que o guarda no dedo e no espírito.

Post Scriptum - Not in a mind scrap.